Do Produtor até à mesa do Consumidor – Pesca excessiva ameaça sardinhas
15 de setembro de 2009 | por Rafaela |Continuando a reportagem sobre produtor e consumidor no Programa Globo Repórter…
Pesca excessiva ameaça sardinhas
Redução dos cardumes provocou o fechamento de várias indústrias. O Brasil já importa sardinhas para industrializar.
No Brasil, a popular sardinha é encontrada principalmente no Sul e Sudeste. Até algum tempo atrás, a sardinha era considerada um peixe de segunda. Mas isso são águas passadas. Ela voltou a ser valorizada quando a ciência descobriu a importância do ômega-3, um superalimento, fundamental para o bom funcionamento do coração, do cérebro e do sistema imunológico e a sardinha é riquíssima em ômega-3.
“Peixes que vivem em águas profundas e frias, como a sardinha, o arenque, o atum e o salmão são ricos em Ômega-3. Além disso, existem fontes de ômega-3 vegetais, como o óleo de linhaça. Mas a principal fonte é o peixe. Neste caso específico, a sardinha recebe um lugar de destaque”, diz o professor de neurologia Fulvio Scorza, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Mas esse alimento tão importante está ameaçado – não pelos peixes predadores, mas pelo bicho homem. Nas últimas décadas, a produção de sardinhas vem diminuindo no Brasil inteiro por causa da pesca excessiva.
A redução dos cardumes provocou o fechamento de várias indústrias de sardinha em lata no Rio de Janeiro. O Brasil passou a importar sardinha para industrializar. E é importante lembrar: sardinha em lata é igualmente rica em ômega-3.
“Fizemos uma pesquisa nas empresas que fornecem sardinhas em conservas, e a sardinha permanece com a quantidade de ômega-3 ideal”, conta Fulvio Scorza.
A disputa pelo mar entre os pescadores artesanais e a indústria
Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro, é um lugar de praias bonitas, sol, turismo e pesca. No município, mais de 200 barcos saem em busca da sardinha, mas já não voltam tão carregados.
Aldemir dos Santos, o seu Chico, hoje com 64 anos, tinha uns 10 quando começou a pescar. Leva uma vida muito simples, mas foi pescando camarão, tainha e sardinha que ele criou quatro filhas e hoje ajuda a alimentar os netos.
“Nós pescamos e, além de comercializarmos, tiramos sardinha para o sustento da nossa família. Também fazemos economia tirando o peixe para comer, evitando assim gastar dinheiro em outras mercadorias”, conta seu Chico.
Mas por que a produção de sardinhas vem diminuindo tanto? Pescadores artesanais culpam os grandes barcos industriais, que chegam a pescar 70 toneladas em apenas dois dias.
“Nós estamos sofrendo a pressão dos barcos industriais porque só temos permissão para seis milhas, no máximo. Nossos equipamentos não oferecem condições para ultrapassarmos esse limite. E os barcos industriais estão nos sufocando”, diz o presidente da colônia de pescadores de Cabo Frio, Eli Cardoso.
Mas os pescadores dos barcos industriais dizem exatamente o contrário.
“O industrial não avançou no artesanal. O artesanal avançou no industrial. Como? Desde que o governo deu incentivo ao artesanal, comprando barcos maiores, motor a diesel, sonda, alguns até com sonares. Eles foram onde nós estávamos. Não fomos nós que fomos onde eles estavam”, defende o comandante de um barco, Luiz Costa, o “Pão de Milho”.
Um dos maiores estudiosos da sardinha no Brasil, adverte: nessa guerra todos perdem. “Este ano, em uma reunião feita em São Paulo, foi proposta uma moratória de 20 meses. Essa moratória está em discussão”, conta Silvio Jablonski, professor de oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Um estudo recente, feito pelo Greenpeace com a ajuda de 40 especialistas, mostra que não apenas a sardinha, mas a maior parte dos peixes caçados pelo homem, no Brasil, estão ameaçados pelo excesso de pesca e pela poluição dos mares.
“Observamos que, no exterior e no Brasil, existe um fator que sobrepuja qualquer uma dessas outras interferências: a pesca excessiva. Hoje se pesca mais do que se poderia pescar”, constata Silvio Jablosnki.
Pelo menos em um ponto quase todos os estudiosos do assunto concordam: se alguma coisa não for feita urgentemente, em um futuro não muito distante, imagens de cardumes de sardinhas poderão ser apenas a lembrança de um tempo de fartura que jamais se repetirá.


